A Bela e a Fera (baseada no conto de Madame de Beaumont)
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Era uma vez um comerciante muito rico que tinha três filhas. As duas mais velhas eram orgulhosas e só queriam saber de bailes e vestidos. A caçula era diferente: gostava de ler, tratava todos com carinho e era tão bonita por dentro e por fora que todos a chamavam de Bela. As irmãs morriam de ciúmes dela.
Um dia, uma tempestade afundou os navios do comerciante, e ele perdeu tudo. A família teve de se mudar para um sítio pequeno no campo. As irmãs mais velhas reclamavam o dia inteiro e não ajudavam em nada. Bela acordava cedo, varria a casa, fazia o pão e cantava enquanto trabalhava.
Passado um ano, chegou uma carta: um dos navios tinha voltado ao porto! O pai se preparou para a viagem e perguntou o que as filhas queriam de presente. As mais velhas pediram vestidos e colares. Bela pediu só uma coisa: «Me traga uma rosa, pai. Aqui não nasce nenhuma.»
Mas, na cidade, o comerciante descobriu que o navio não tinha trazido quase nada. Voltou para casa mais pobre do que tinha ido. No caminho, no meio da floresta, caiu uma nevasca. Ele se perdeu e, já sem forças, viu um castelo todo iluminado. Os portões estavam abertos, a lareira acesa e a mesa posta, mas não havia ninguém. Ele comeu, dormiu numa cama macia e, de manhã, encontrou roupas limpas à sua espera.
Ao sair, passou por um caramanchão cheio de rosas e lembrou do pedido da Bela. Colheu uma. Na mesma hora ouviu um rugido medonho, e diante dele apareceu uma Fera horrível. «Eu salvei a sua vida e você rouba as minhas rosas, que eu amo mais do que tudo! Por isso vai morrer.» O pobre homem caiu de joelhos e explicou que a rosa era para a filha. A Fera pensou um pouco. «Pode ir. Mas uma das suas filhas terá de vir no seu lugar, por vontade própria. Se nenhuma quiser, você volta em três meses.»
Em casa, o pai contou tudo, chorando. As irmãs mais velhas logo disseram: «A culpa é da Bela e da rosa dela!» Bela respondeu tranquila: «Então eu vou. Não vou deixar o meu pai morrer por minha causa.» O pai implorou que ela ficasse, mas Bela foi com ele até o castelo.
A Fera a recebeu com gentileza. Deu a ela um quarto cheio de livros, um cravo para tocar e, na porta, uma placa que dizia: «Aqui quem manda é você.» Toda noite, às nove horas, a Fera vinha jantar com ela e conversavam. A Fera era feia, mas era bondosa e atenciosa, e aos poucos Bela perdeu o medo. No fim de cada jantar a Fera perguntava: «Bela, você quer se casar comigo?» E Bela respondia, com carinho: «Não, Fera. Gosto muito de você, mas como amiga.»
No quarto da Bela havia um espelho mágico. Um dia ela viu nele o pai, doente de saudade. Pediu à Fera para ir visitá-lo. «Vá» disse a Fera, «mas volte em oito dias, senão morrerei de tristeza. Quando quiser voltar, ponha este anel em cima da mesa antes de dormir.» Bela prometeu.
Na manhã seguinte, ela acordou na casa do pai, que sarou de tanta alegria. As irmãs, que tinham se casado e não eram felizes, ficaram ainda mais invejosas ao ver Bela tão bem vestida. «Vamos segurá-la aqui mais de oito dias» combinaram. «A Fera vai ficar furiosa e acabar com ela.» E fingiam chorar sempre que Bela falava em ir embora. Assim passaram dez dias.
Na décima noite, Bela sonhou com a Fera caída na grama do jardim, quase sem vida. Acordou aflita: «Como eu pude ser tão ingrata com quem foi tão bom para mim?» Pôs o anel na mesa e voltou a dormir. De manhã estava no castelo. Correu até o jardim e encontrou a Fera deitada perto do riacho, sem se mexer. Molhou o rosto dela com água fresca, e a Fera abriu os olhos. «Você esqueceu a sua promessa, e eu parei de comer. Mas agora morro feliz, porque vi você outra vez.»
«Não, Fera querida, você não vai morrer!» disse Bela. «Viva e seja meu marido. Eu achava que gostava de você só como amiga, mas esta dor me mostrou que não consigo viver sem você.» Assim que ela disse isso, o castelo se encheu de luzes, fogos e música. A Fera tinha desaparecido, e no lugar dela estava um jovem príncipe. Uma fada malvada o tinha transformado, e só uma moça que o amasse pela sua bondade poderia quebrar o feitiço.
Bela e o príncipe se casaram, e o pai foi morar com eles no castelo. E as irmãs invejosas? Uma fada boa as transformou em estátuas na porta do castelo, até que elas reconhecessem os seus erros. Diz o conto que é mais fácil mudar qualquer coisa do que mudar um coração cheio de inveja.
Para conversar: A Bela aprendeu a gostar da Fera olhando para o coração dela, e não para a aparência. Você já conheceu alguém que parecia uma coisa por fora e era outra por dentro?