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Lucas acordou com o som das cigarras cantando no alto da mangueira no quintal. Não era um som de inverno, daqueles que pedem cobertores e chocolate quente. Era o som do verão brasileiro, vibrante e cheio de luz. Ele correu até a janela e viu o céu de um azul tão claro que parecia pintado à mão. Para Lucas, o Natal era a época mais mágica do ano, e o fato de ser sob um sol de trinta graus só tornava tudo mais especial.
Naquela manhã de 24 de dezembro, a casa já cheirava a festa. Sua avó, a Vovó Zezé, já estava na cozinha desde cedo. Lucas adorava observar o movimento. No Brasil, o Natal não tinha bonecos de neve no jardim, mas tinha mangueiras carregadas de frutos doces e luzinhos coloridos piscando nas palmeiras.
— Cuidado com a farofa, Lucas! — avisou a vovó, rindo, enquanto o menino tentava roubar um pedacinho do torresmo crocante que ela misturava à farinha de mandioca. — O Natal no calor exige energia, e essa farofa é o segredo para aguentar a brincadeira até a meia-noite.
Lucas ajudava como podia. Ele era o 'ajudante oficial de rabanadas'. Sua tarefa era passar as fatias de pão molhadas no leite e no ovo para que a vovó as fritasse, e depois polvilhá-las com uma mistura generosa de açúcar e canela. O perfume doce invadia a casa, misturando-se ao aroma do peru que assava lentamente no forno, recheado com temperos que só a Vovó Zezé conhecia.

— Vovó, o Papai Noel não sente muito calor com aquela roupa vermelha de veludo? — perguntou Lucas, preocupado, enquanto secava o suor da testa com as costas da mão.
— Ah, meu querido — respondeu ela, piscando um olho. — Dizem que, quando ele cruza a fronteira do Brasil, ele troca as botas por chinelos de dedo e toma uma água de coco bem geladinha antes de entregar os presentes. Ele adora o nosso calor porque o coração dos brasileiros é tão quente quanto o nosso sol.
À tarde, os primos chegaram. Em vez de ficarem sentados em volta de uma lareira, todos correram para o quintal. O pai de Lucas ligou a mangueira e montou um esguicho de água. As crianças corriam descalças pela grama, rindo e se refrescando, enquanto os adultos arrumavam a mesa debaixo da sombra da varanda. O Natal brasileiro era assim: barulhento, alegre e muito refrescante.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa, a família começou a se arrumar. Lucas vestiu sua camiseta de algodão mais fresca. A mesa da ceia estava deslumbrante. Além do peru dourado e da farofa colorida com pedaços de damasco e passas, havia travessas cheias de frutas tropicais: fatias de abacaxi gelado, mangas suculentas e cachos de uvas brilhantes.

— A ceia está pronta! — anunciou a mãe de Lucas.
Todos se reuniram ao redor da mesa. Antes de comerem, eles deram as mãos. O avô de Lucas agradeceu pela saúde e pela alegria de estarem todos juntos. Naquela hora, Lucas percebeu que o Natal não dependia do clima. Fosse com neve ou com sol de rachar, a magia estava naquele abraço coletivo, no sabor da rabanada que derretia na boca e no carinho da família reunida.
A noite caiu, mas o calor continuava suave, carregado pelo perfume das flores noturnas. À meia-noite, os fogos de artifício iluminaram o céu, e a troca de presentes começou. Entre risadas e o som de músicas de Natal em ritmo de bossa nova, Lucas olhou para sua família e sorriu. Ele sabia que o Natal no Brasil era único. Era uma festa de cores vivas, de sabores intensos e, acima de tudo, de um calor que vinha de dentro de cada um.
Ao se deitar, cansado de tanto brincar e comer, Lucas pensou no Papai Noel de chinelos e sorriu. Ele fechou os olhos sentindo a brisa morna da noite e sonhou com o próximo Natal, que com certeza seria tão quente e feliz quanto aquele.
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