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Havia uma vez, em uma vales onde o sol sempre parecia brilhar com um tom laranja, um imenso milharal que pertencia ao fazendeiro Don Manuel. As espigas eram tão grandes e doces que seu aroma se espalhava por quilômetros, tentando todos os animais da floresta. No entanto, ninguém era tão corajoso nem tão astuto quanto Tio Coelho para ousar buscar aquele tesouro dourado. Tio Coelho, com suas orelhas longas e sempre alerta, conhecia cada canto do milharal. Sabia quais plantas davam os grãos mais tenros e quais caminhos eram os mais seguros para evitar os cães do fazendeiro. Mas um dia, enquanto saboreava uma espiga especialmente suculenta, ouviu um estalo entre as folhas. Não era o vento, nem era um cão; era Tio Lobo, que o observava com olhos famintos e uma sorriso malicioso. Tio Lobo sempre tinha querido pegar Tio Coelho, não apenas por fome, mas para provar que era o mais inteligente da floresta.
— Ah, Tio Coelho! — exclamou o lobo, saindo de seu esconderijo —. Finalmente te peguei. Não tem escapatória entre essas plantas tão altas. Hoje vou jantar coelho com guarnição de milho. Tio Coelho, embora sentisse que seu coraçãozinho batia a mil por hora, não perdeu a calma. Sabia que contra a força do lobo não poderia ganhar, mas contra sua vaidade tinha uma oportunidade.
— Oh, Tio Lobo! — respondeu o coelho com fingida resignação —. É uma pena que me coma agora, justo quando estava prestes a descobrir o segredo do Milho de Ouro. O lobo, que era muito ganancioso, parou seu avanço.
— O que é isso do Milho de Ouro? — perguntou com curiosidade. Tio Coelho apontou para o centro do campo, onde as plantas eram tão altas que pareciam tocar o céu.
— Dizem que no coração do milharal cresce uma espiga cujos grãos não são de comida, mas de ouro puro. Estava prestes a encontrá-la, mas se me comer agora, nunca saberá onde está. O lobo pensou por um momento. O ouro lhe permitiria comprar todas as galinhas do mundo.
— Tá bem, orelhudo. Me leve até esse milho, mas se tentar escapar, te pego antes que diga cenoura.
Caminharam e caminharam entre os sulcos. Tio Coelho pulava alegremente enquanto o lobo, mais pesado, se embaraçava com as folhas secas e os talos. Cada vez que o lobo se impacientava, Tio Coelho inventava uma nova sinal:
— Olha, Tio Lobo! Vê aquele brilho? Estamos perto! Realmente só era o reflexo do sol em uma pedra, mas o lobo, cego pela ambição, acreditava em tudo. Enquanto avançavam, Tio Coelho avistou à distância o espantalho de Don Manuel. O fazendeiro lhe colocou um chapéu velho, uma gravata vermelha e, o mais importante, braços de madeira que se moviam com o vento de forma ameaçadora. Tio Coelho sorriu para si mesmo; já tinha um plano.
— Ahí está! — sussurrou Tio Coelho com voz temerosa —. O guardião do Milho de Ouro. É um gigante silencioso que não deixa passar ninguém. Se quiser o ouro, terá que enfrentá-lo.
Tio Lobo, querendo demonstrar sua coragem, inflou o peito.
— Bah! Um gigante não é nada para um lobo tão astuto como eu. Fique aqui e veja como o derroto. O lobo se aproximou sigilosamente do espantalho. O vento soprou com força e um braço de madeira golpeou acidentalmente a cabeça do lobo.
— Ai! Me bateu! — rugiu o lobo furioso —. Toma isso, gigante de palha! O lobo pulou sobre o espantalho, mas suas garras se embaraçaram na roupa velha e na palha. Quanto mais lutava, mais se afundava no armazém de madeira. Tio Coelho, aproveitando a confusão, começou a correr para a saída do milharal.
— Adeus, Tio Lobo! Divirta-se com sua luta contra o gigante! Espero que o ouro te pareça rico! — gritou o coelho enquanto desaparecia entre os arbustos da floresta.
O lobo finalmente conseguiu se soltar do espantalho, mas estava coberto de palha, com o chapéu velho emaranhado nas orelhas e muito cansado. Não havia ouro, nem havia coelho, e pior, os latidos dos cães do fazendeiro começaram a ser ouvidos perto. Tio Lobo teve que fugir apressado, jurando que nunca mais se deixaria enganar pelo pequeno coelho. Enquanto isso, em sua toca segura sob um velho carvalho, Tio Coelho compartilhava algumas espigas reais com sua família.
— Lembrem-se, filhos — dizia Tio Coelho com um sorriso —, que vale mais engenho que força, e que a ganância sempre te deixa o estômago vazio. E assim, no vale do sol laranja, se contou por gerações a história de como um pequeno coelho venceu o lobo não com garras, mas com seu engenho e uma pitada de palha. Don Manuel nunca soube por que seu espantalho apareceu um dia destroçado, mas Tio Coelho e o resto dos animais da floresta sempre riam ao lembrar da cara do lobo lutando com um brinquedo de pano. Desde aquele dia, o lobo olhava duas vezes cada sombra no milharal, temendo que outro gigante o estivesse esperando, enquanto Tio Coelho seguiu desfrutando do milho mais doce do mundo, sempre um passo à frente, sempre livre e sempre muito, muito astuto.
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