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João era um menino de sete anos que vivia rodeado de tesouros. Para a maioria das pessoas, esses tesouros pareciam apenas pedras comuns, gravetos tortos, tampinhas de garrafa e desenhos amassados, mas para João, cada um daqueles objetos era uma peça fundamental de suas grandes aventuras. E quem o ajudava a transportar todo esse mundo era Bituca, sua fiel mochila de lona azul. Bituca tinha sido um presente de aniversário e, no início, era vibrante, com zíperes que deslizavam como manteiga e alças acolchoadas que pareciam abraçar os ombros de João.
No entanto, com o passar dos meses, João começou a esquecer que Bituca tinha limites. Ele não a via apenas como uma mochila escolar, mas como um depósito infinito. Toda manhã, a rotina era a mesma: João enfiava três livros grossos de capa dura, um estojo gigante metálico, uma lancheira pesada e, por cima de tudo, seus 'tesouros' do dia. Certa segunda-feira, foram cinco pedras de granito que ele achou no jardim. Na terça, foi um dinossauro de plástico maciço que pesava quase tanto quanto um tijolo. Bituca sofria em silêncio, mas por dentro, ela gritava.

— Ai, minhas costuras! — pensava Bituca sempre que João a jogava nas costas com um solavanco. — Minhas alças estão esticando tanto que sinto que vou arrebentar a qualquer momento! — A personificação da dor era real para Bituca. Cada vez que João corria para pegar o ônibus escolar, o conteúdo dentro dela balançava violentamente. O estojo batia nas pedras, as pedras amassavam o lanche, e o lanche soltava farelos que entravam nos vãos do tecido. Bituca sentia-se suja, pesada e, acima de tudo, ignorada. João nem ligava para o esforço que ela fazia. Para ele, Bituca era apenas um objeto que 'carregava coisas'.
Em uma tarde chuvosa, o cansaço de Bituca atingiu o ápice. João tentou enfiar um guarda-chuva molhado e um par de botas de borracha reserva dentro dela, mesmo já estando completamente lotada. Foi então que o zíper principal deu um estalo seco. Não quebrou, mas travou de um jeito que parecia uma careta de dor. Pela primeira vez, Bituca decidiu reclamar de uma forma que João não pudesse ignorar. Ela se recusou a abrir. João puxava de um lado, puxava de outro, e nada. Ele começou a ouvir um som estranho, um rangido que parecia um suspiro cansado vindo das fibras do tecido.

— Por que você não abre, Bituca? — perguntou João, frustrado. Ele sentou no chão do quarto e olhou fixamente para a mochila. Foi então que ele percebeu algo que nunca tinha notado antes. As alças azuis estavam desbotadas e finas. O fundo da mochila tinha uma mancha escura de um suco que derramara semanas atrás e que ele nunca limpou. Bituca parecia triste. De repente, em sua imaginação de criança, João conseguiu ouvir a voz da mochila, uma voz rouca de quem carregou o mundo nas costas por tempo demais.
— Eu estou cansada, João — parecia dizer o rangido do zíper. — Eu carrego seus livros, seus brinquedos e até o lixo que você esquece de tirar. Minhas costas doem e eu não aguento mais nem um graminho de peso desnecessário. Eu sou sua parceira de aventuras, não um caminhão de mudança.
João sentiu um aperto no coração. Ele percebeu que, ao cuidar mal de Bituca, ele também estava tornando seu próprio dia mais difícil, pois suas costas também doíam ao final da aula. Com paciência, ele pegou um pouco de sabão e um pano úmido. Primeiro, ele pediu desculpas silenciosamente e começou a limpeza. Tirou as pedras pesadas e as colocou em uma prateleira de troféus. Jogou fora os papéis de bala e os farelos de biscoito. Lavou a mancha de suco e passou um pouco de cera de vela no zíper para que ele voltasse a deslizar suavemente.
Quando Bituca finalmente abriu, parecia que ela estava dando um bocejo de alívio. João selecionou apenas o essencial para o dia seguinte: um caderno, o estojo e o lanche. Ao colocar a mochila nas costas na manhã seguinte, João se sentiu leve, como se pudesse voar. Bituca também estava feliz. Suas alças agora se ajustavam perfeitamente e ela não precisava mais gritar por dentro. Eles aprenderam que, para uma amizade durar — mesmo que seja entre um menino e sua mochila —, é preciso respeito, cuidado e, acima de tudo, não carregar mais do que o coração (ou as costuras) podem aguentar.
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