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Mateo não era um detetive comum. Não tinha uma lupa gigante nem usava um casaco longo, mas tinha algo muito melhor: uma curiosidade que não cabia no peito e um caderno de anotações onde registrava tudo o que achava estranho. Estudava o sexto ano do ensino fundamental e, embora às vezes lhe custasse encontrar as palavras certas para explicar o que pensava, era um mestre em observar o que os outros deixavam passar. Naquela terça-feira, o ambiente no colégio Valle del Sol estava carregado de um nervosismo incomum. Ao entrar na sala de aula, Mateo notou algo imediatamente: o professor, o senhor Martín, não estava escrevendo a data no quadro, como sempre fazia. Em vez disso, andava de um lado para o outro, olhando constantemente para o chão e rascando a nuca, com a testa tão franzida que suas sobrancelhas pareciam uma única linha.
— O que está acontecendo, professor? — perguntou Mateo, deixando sua mochila na cadeira.
O senhor Martín suspirou profundamente. — Mateo, o relógio de areia do meu escritório desapareceu. O que usamos para os debates. Estava aqui ontem à noite, e hoje, simplesmente, sumiu. Não há rastro dele.
Mateo olhou para a mesa. Estava impecável, exceto por um pequeno círculo de pó que indicava onde o objeto costumava estar. Perto da borda da mesa, viu algo que chamou sua atenção: uma pequena mancha de cor azul brilhante, quase pegajosa. Não disse nada, mas anotou no caderno. Dica 1: Mancha azul.
Durante o recreio, Mateo decidiu investigar. Sabia que para resolver um mistério nem sempre precisava que alguém lhe contasse a verdade, mas sim observar as ações dos outros. Sentou-se em um banco do pátio e observou. Primeiro viu Lucía. Ela estava sentada sozinha, movendo as pernas rapidamente e olhando constantemente para a porta da direção. Tinha as mãos escondidas nos bolsos de seu moletom. Por que ela está tão nervosa se sempre é a mais tranquila?, pensou Mateo.
Depois apareceu Hugo. Hugo vinha correndo do pavilhão de esportes. Ao passar perto de Mateo, este notou que Hugo tinha o calção da uniforme manchado de algo branco, como giz, e respirava agitado, embora não viesse da aula de educação física. Dica 2: Calções brancos.
De repente, tocou o sinal. Ao voltar para a aula, o senhor Martín anunciou que, se o relógio não aparecesse, ninguém poderia participar do torneio de xadrez da sexta-feira. O silêncio na sala era cortável com um faca. Mateo olhou ao redor. Lucía ainda tinha as mãos nos bolsos. Hugo esfregava as mãos no calção. Então, Mateo lembrou da mancha azul da mesa. Olhou nos estoques dos colegas. O de Lucía estava aberto e, dentro, havia um frasco de cola de purpurina azul que pingava um pouco. Mas Lucía não parecia culpada por um roubo, parecia... preocupada.
Mateo se aproximou de Lucía durante a troca de aula. — Lucía, algo se quebrou? — perguntou com voz suave.
Ela se assustou e seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu não queria, Mateo. Ontem, depois da aula, queria ver quanto tempo a areia demorava para cair. Peguei, mas escorregou. Quebrou uma ponta e saiu um pouco de areia. Tentei colar com minha cola de purpurina, mas não funcionou. Fiquei assustada e escondi no armário de limpeza.
Mateo assentiu. Já tinha metade do mistério resolvido. Mas por que Hugo estava manchado de giz e nervoso? Foi ao armário de limpeza no fundo do corredor. Lá encontrou Hugo, que estava agachado, tentando limpar algo com uma vassoura velha. Ao ver Mateo, Hugo ficou vermelho como um tomate.
— Não é o que parece! — exclamou Hugo —. Vi Lucía esconder algo aqui ontem e pensei que fosse uma brincadeira. Vim buscar para devolver ao professor, mas tropecei nos baldes de lavar e derrubei uma caixa de pó de giz que estava no estante superior. Estou tentando limpar o desastre desde o início da manhã para ninguém se meter em encrencas.
Mateo juntou as peças em sua cabeça. Lucía não era uma ladrã, era uma menina assustada por um acidente. Hugo não era um cúmplice, era um amigo tentando ajudar, embora de forma um pouco desajeitada. O relógio não estava perdido, apenas machucado e escondido atrás de baldes de lavar.
— Escutem — disse Mateo aos dois —. Se vamos agora ao senhor Martín e contarmos a verdade, ele entenderá. O que mais o incomoda não é que o relógio quebrou, mas que ninguém diz nada. Além disso, minha mãe tem uma cola especial que cola cristal de verdade, não como a de purpurina.
Lucía e Hugo se olharam. O alívio em seus rostos era evidente. Juntos, foram ao escritório do professor. O senhor Martín os ouviu com atenção. Não se irritou. Pelo contrário, agradeceu pela honestidade deles e elogiou Mateo pela capacidade de observação.
— Como você soube que era eu quem tinha a cola? — perguntou Lucía enquanto caminhavam de volta.
— Não sabia com certeza — respondeu Mateo com um sorriso —, mas vi a mancha azul e lembrei que ontem você estava fazendo um cartaz com purpurina. Só precisei unir os pontos.
Naquela tarde, Mateo escreveu no caderno: Caso fechado. As pessoas às vezes escondem coisas não porque são más, mas porque têm medo. Para entender o mundo, não basta ouvir o que dizem, é preciso observar o que fazem. Na sexta-feira, todos jogaram xadrez, e o relógio de areia, com uma pequena cicatriz brilhante na base, voltou a marcar o tempo no escritório do senhor Martín. Mateo se sentiu orgulhoso. Não precisava ser um detetive de cinema para ajudar seus amigos; só precisava observar, pensar e, acima de tudo, saber ouvir os silêncios.
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