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Pedro Malasartes caminhava por uma estrada de terra batida, assobiando uma melodia alegre enquanto o sol da tarde dourava os campos do sertão. Ele sentia a barriga roncar como um trovão distante, mas seus bolsos estavam tão vazios quanto um ninho de passarinho no rigor do inverno. Ao avistar uma casinha branca com janelas verdes e uma chaminé soltando fumaça, ele soube que ali morava Dona Filomena, conhecida por ser mais pão-dura que sola de bota velha. Pedro sorriu com malícia, ajeitou seu chapéu de palha e decidiu que era hora de usar sua famosa astúcia para conseguir um jantar quentinho. Com passos leves, ele se aproximou do portão e começou a organizar algumas pedras redondas que encontrou pelo chão, fazendo um estardalhaço proposital para atrair o olhar da moradora.
Dona Filomena logo espiou pela fresta da porta, curiosa com aquele rapaz que acendia um foguinho de gravetos bem na beira da estrada, quase em frente à sua entrada. "O que você está fazendo aí, moço?", perguntou ela, não resistindo à curiosidade enquanto cruzava os braços sobre o avental florido e apertava os olhos. Pedro, sem olhar para trás e fingindo estar muito concentrado, respondeu com toda a calma do mundo: "Estou preparando uma deliciosa sopa de pedra, minha senhora, a melhor que já se provou nestas bandas!". A mulher arregalou os olhos, achando aquilo uma tremenda bobagem, mas o brilho das chamas e a confiança de Pedro a deixaram intrigada. "Sopa de pedra? Mas pedra não tem gosto de nada, rapaz!", exclamou ela, aproximando-se do pequeno caldeirão de ferro que Pedro trazia sempre em sua trouxa de viagens.
"Ah, mas esta é uma pedra especial, Dona Filomena, embora eu confesse que ela ficaria ainda melhor com um tiquinho de sal e uma cebola", comentou Pedro, mexendo a água borbulhante com um pedaço de pau limpo. A curiosidade da dona da casa foi muito maior que sua avareza habitual, e logo ela correu para dentro, trazendo um punhado de sal e uma cebola roxa bem gordinha. "E se colocássemos umas batatas e um pedaço de carne, aí sim seria um banquete digno de um rei!", sugeriu o malandro, com um brilho maroto nos olhos castanhos. Em poucos minutos, a cozinha de Dona Filomena estava aberta de par em par, e ela trazia cenouras laranjinhas, batatas descascadas e até um pedaço de chouriço defumado para incrementar a panela. O vapor subia cheiroso, perfumando todo o quintal e fazendo o estômago dos dois dançar de pura expectativa.
Quando a sopa ficou pronta, grossa, colorida e exalando um aroma divino, Pedro serviu dois pratos fundos e convidou a senhora para se sentar à sombra fresca de uma mangueira. Eles comeram em silêncio, apreciando o sabor reconfortante daquela refeição que, por um misto de mágica e esperteza, tinha surgido de uma simples pedra do caminho. "Não é que a pedra é boa mesmo? Nunca comi nada igual!", disse Dona Filomena, limpando o canto da boca com o avental e sorrindo de verdade pela primeira vez em muito tempo. Pedro terminou seu prato, lavou a pedra cuidadosamente no riacho próximo e a guardou no bolso com um piscar de olhos cúmplice. "O segredo está no tempero da generosidade, minha senhora", despediu-se ele, seguindo seu caminho com o coração leve e a barriga muito, muito feliz.
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