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No coração mais profundo da mata brasileira, onde as árvores parecem tocar o céu e o cheiro de terra úmida perfuma o ar, vivia uma figura muito especial. Seu nome era Cuca. Ao contrário das histórias que os adultos contavam para apressar as crianças, a Cuca não era alguém de quem se devesse ter medo. Ela era, na verdade, a Avó da Floresta, uma guardiã de cabelos amarelos como o sol e pele verde como as folhas das palmeiras. Sua caverna não era escura, mas iluminada por milhares de vaga-lumes que decidiram morar lá apenas para ouvir suas histórias.
Cuca tinha uma missão muito importante. Todos os dias, quando o sol começava a se esconder atrás das montanhas e o céu ganhava tons de violeta e laranja, ela pegava seu grande caldeirão de barro. Mas não pense que ela cozinhava poções estranhas! Dentro daquele caldeirão, a Cuca misturava pétalas de jasmim, gotas de orvalho colhidas ao amanhecer e um punhado de pó de estrelas que caía do céu durante a noite. Ela mexia a mistura com uma colher de pau feita de sândalo, criando o que chamava de 'O Chá do Sossego'.
Certa noite, enquanto o vento soprava baixinho entre as samambaias, a Cuca sentiu uma pequena agitação no ar. Ela tinha ouvidos muito atentos, capazes de escutar o bater de asas de uma borboleta a quilômetros de distância. Ela ouviu um soluço baixinho vindo de uma casinha na beira do rio. Era o pequeno Tiago, um menino de cinco anos que não conseguia dormir porque tinha medo das sombras que os galhos das árvores faziam na parede do seu quarto.
'Ora, ora', murmurou a Cuca com sua voz rouca, porém doce, que lembrava o som das águas de um riacho. 'Parece que alguém precisa de um pouco de carinho da mata.'
Ela vestiu seu xale feito de teias de aranha prateadas e caminhou silenciosamente pela floresta. Por onde passava, os animais a cumprimentavam. O Saci-Pererê, que costumava fazer travessuras, já estava bocejando em cima de um galho, e o Curupira descansava seus pés virados para trás sobre um tapete de musgo. Todos na floresta dormiam tranquilos, pois sabiam que a Cuca estava vigiando.
Ao chegar à janela de Tiago, a Cuca não entrou. Ela ficou ali, flutuando levemente no brilho do luar. Com um gesto delicado, ela soprou um pouquinho do vapor perfumado do seu caldeirão mágico para dentro do quarto. O aroma de jasmim envolveu o menino como um abraço quentinho. Tiago, que antes estava com os olhos arregalados de medo, sentiu suas pálpebras pesarem.

Então, a Cuca começou a cantar. Sua voz não era assustadora; era uma melodia que parecia uma canção de ninar ancestral, passada de árvore em árvore desde o início dos tempos:
'Dorme, menino, que a mata te abraça,
A sombra é apenas o medo que passa.
O vento é carinho, a lua é clarão,
A Cuca vigia com o seu coração.
Não tenha receio do escuro da noite,

As estrelas vigiam, brilhando no açoite.
Sonhe com rios, com flores e cor,
Durma tranquilo, cercado de amor.'
Enquanto cantava, a Cuca usou suas mãos mágicas para transformar as sombras na parede. O que antes parecia um monstro de braços longos, transformou-se, aos olhos de Tiago, na imagem de uma árvore frondosa que o protegia. O som dos grilos, que antes o assustava, tornou-se uma orquestra afinada tocando apenas para ele.
Tiago finalmente fechou os olhos e um sorriso apareceu em seu rosto. Ele estava sonhando que voava nas costas de uma arara azul, sobrevoando florestas de algodão doce. A Cuca, vendo que o pequeno estava em paz, deu um beijo de luz no ar e seguiu seu caminho. Ela ainda tinha muitas casas para visitar, muitas crianças para ninar e muita serenidade para espalhar.
Antes de voltar para sua caverna, ela parou à beira do rio e olhou para o próprio reflexo na água. Ela sabia que muitos tinham medo de sua aparência diferente, mas ela não se importava. Ela sabia que sua verdadeira beleza estava na proteção que oferecia e no amor que sentia por cada criaturinha, fosse bicho ou gente.
Ao retornar para seu lar, a Cuca apagou os vaga-lumes um a um, com um sopro gentil. Ela se deitou em sua rede de cipós e, antes de fechar seus próprios olhos cor de mel, suspirou satisfeita. A floresta estava em silêncio. O mundo estava em paz. E, enquanto a Cuca existisse para cantar sua canção, nenhuma criança precisaria ter medo do escuro novamente. Pois a Cuca não era o bicho-papão; ela era a vovó de escamas verdes que transformava pesadelos em luz de luar.
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