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Guto não era um fantasma comum, daqueles que dão sustos ou arrastam correntes barulhentas pelo corredor. Ele morava no sótão de uma biblioteca municipal muito antiga, onde o cheiro de papel envelhecido e baunilha flutuava pelo ar como um abraço quentinho de vó. Guto era branquinho como uma nuvem de algodão doce e usava um laço borboleta azul-piscina que sua avó fantasma lhe dera de presente de aniversário. Todas as noites, ele flutuava entre as estantes de madeira escura, tentando praticar o seu melhor "bu!", mas o som que saía de sua boquinha redonda parecia mais o assobio suave de um passarinho ou o barulho de uma bexiga de festa esvaziando. Ele ficava um pouco triste, achando que nunca seria um fantasma de verdade se não conseguisse fazer ninguém pular de surpresa, até que encontrou alguém muito especial em uma noite de lua cheia.
Certa noite, uma menina chamada Nina entrou na biblioteca segurando uma lanterninha que projetava estrelas douradas nas paredes. Ela estava procurando por seu livro de contos de fadas favorito, que havia esquecido em uma das mesas de leitura durante a tarde chuvosa. Guto, curioso e com o coração batendo rápido de emoção, resolveu aparecer por trás de uma pilha de enciclopédias pesadas e empoeiradas. "Bu!", ele tentou dizer com toda a sua força, mas o que saiu foi um espirro engraçado que fez seu corpo inteiro balançar como uma gelatina de coco no prato. Nina não gritou nem correu assustada; em vez disso, ela deu uma risadinha cristalina e perguntou, com os olhos brilhando de curiosidade, se aquele lençolzinho flutuante estava resfriado ou se precisava de um lenço de papel. Guto ficou vermelho de vergonha, mas logo percebeu que ter uma amiga para conversar era muito mais divertido do que assustar as pessoas nos corredores vazios.
Os dois passaram o resto da madrugada brincando de esconde-esconde entre os clássicos da literatura e os mapas geográficos antigos que ficavam guardados em gavetões de carvalho. Nina descobriu que Guto podia atravessar as capas duras dos livros para ver as ilustrações coloridas por dentro, e ele mostrou a ela como as letras de ouro brilhavam sob a luz prateada da lua que entrava pela claraboia. "Você é a melhor história de fantasma curta que eu já conheci", sussurrou a menina, sentando-se em um tapete felpudo de cor carmim enquanto apontava para os desenhos de dragões bondosos e castelos de cristal. Guto aprendeu que sua voz suave, que antes o envergonhava, era na verdade perfeita para contar segredos e que seu brilho azulado servia como uma lanterninha mágica para quem não queria sentir o menor pingo de medo do escuro. Eles riram tanto que o pó das prateleiras subiu e formou pequenas fadas brilhantes que dançavam ao redor de suas cabeças, celebrando aquela amizade tão inesperada quanto encantadora.
Quando os primeiros raios de sol começaram a pintar o céu de cor-de-rosa e laranja, Nina sentiu seus olhinhos pesarem de tanto sono e bocejou bem comprido. Guto, com todo o carinho que cabia em seu peito de nuvem, usou seus poderes etéreos para flutuar um cobertor de lã bem macio até os ombros da menina, que já cochilava tranquilamente encostada na estante de contos de fada. Ele prometeu a si mesmo, enquanto observava o balanço calmo da respiração de Nina, que cuidaria dos sonhos dela todas as noites, transformando qualquer sombra comprida em uma figura amigável feita de fumaça de bolo de canela. O pequeno fantasma finalmente entendeu, com um sorriso largo, que seu verdadeiro propósito não era causar arrepios na espinha, mas sim espalhar doçura, luz e companhia nos momentos de silêncio absoluto da madrugada. Com um último suspiro de pura felicidade, Guto se encolheu confortavelmente entre as páginas de um livro de poesias antigas e dormiu profundamente, sonhando com as próximas aventuras que os dois viveriam juntos naquela biblioteca mágica.
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