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Bem lá no alto, entre o azul do céu e o branco das outras nuvens, vivia uma nuvenzinha chamada Algodão. Diferente das outras nuvens, que gostavam de correr de um lado para o outro o dia inteiro, mudando de formato e brincando de virar dragões ou castelos, Algodão vivia com sono.
— Preciso encontrar um lugar tranquilo para descansar — ela dizia, bocejando enquanto flutuava devagar, deixando as outras nuvens passarem correndo por ela.
Certo entardecer, quando o céu começou a ganhar tons de laranja e rosa, Algodão decidiu procurar esse lugar de uma vez por todas. Ela desceu um pouco mais perto da terra, curiosa para ver o que havia lá embaixo, coisa que raramente fazia.
Primeiro, passou por cima de uma floresta enorme. As árvores balançavam suavemente com o vento, e os passarinhos já voltavam para seus ninhos, cantando um para o outro antes de se aninharem entre os galhos.
— Que lugar bonito — pensou Algodão — mas acho que aqui embaixo é barulhento demais para mim, com tantos passarinhos conversando antes de dormir.
Continuou flutuando e chegou perto de uma montanha muito alta, com o topo coberto de neve branquinha, brilhando sob os últimos raios de sol do dia.
— Aqui é tão parecido comigo! — ela pensou, encantada com a neve macia, quase do mesmo branquinho que ela própria. Pousou de leve sobre uma pedra gelada, imaginando que finalmente tinha encontrado seu lugar.
Mas o vento gelado da montanha soprou forte, fazendo-a tremer da cabeça aos pés, e ela percebeu que também não era o lugar certo. Muito frio para uma soneca tranquila, por mais parecida que a neve fosse com ela.
— Vou continuar procurando — suspirou Algodão, levantando voo de novo, um pouco mais cansada do que antes.
Desceu então por um vale, onde um rio corria calmo entre pedras redondas. A água fazia um som suave, quase uma canção, e por um instante Algodão pensou em descansar ali, flutuando bem baixinho sobre o rio.
Mas um bando de patos selvagens, ainda acordados, nadava de um lado para o outro, conversando animadamente sobre a viagem que fariam no dia seguinte, e o barulho, mesmo gentil, era demais para quem só queria fechar os olhos.
Um pouco mais além, Algodão avistou um deserto enorme, com dunas de areia dourada que pareciam ondas paradas no tempo. O silêncio ali era completo, e por um momento ela pensou ter encontrado, finalmente, o lugar perfeito.
Mas assim que o sol terminou de se pôr, o ar do deserto esfriou de um jeito estranho e seco, tão diferente da umidade macia a que Algodão estava acostumada, que ela sentiu como se fosse se desfazer aos pedacinhos.
— Nem aqui — suspirou ela, um pouco desanimada, olhando para o céu que já escurecia rapidamente. — Será que existe mesmo um lugar certo para mim?
Cansada e quase sem esperança, ela deixou o vento levá-la mais um pouco, sem escolher para onde, só flutuando devagar, deixando-se guiar.
Ainda flutuando sem rumo, Algodão passou por cima de uma praia comprida, onde as ondas quebravam devagar na areia, fazendo um barulho suave de vai-e-vem. Por um instante, aquele som pareceu quase perfeito para uma soneca, e ela desceu bem baixinho, quase tocando a espuma branca das ondas.
Mas o vento do mar era salgado e um pouco forte demais, empurrando-a de um lado para o outro sem parar, como se não quisesse deixá-la parada nem por um segundo.
— Nem aqui consigo ficar quieta — murmurou Algodão, já sentindo os olhos pesados de tanto sono acumulado, mas ainda sem um lugar para descansar de verdade.
Foi então que ela lembrou de um conselho que uma nuvem mais velha lhe dera certa vez: “As vezes, o lugar perfeito não é o mais bonito, nem o mais silencioso. É aquele onde alguém precisa exatamente de você.” Algodão nunca tinha entendido bem o que aquilo queria dizer, mas, cansada como estava, decidiu confiar e continuar voando, deixando de procurar um lugar perfeito e passando a procurar, em vez disso, um lugar que precisasse dela.
Algodão seguiu viagem, agora sobre um vilarejo pequeno, onde as casinhas tinham luzes amarelas acendendo nas janelas, uma a uma, como se o próprio vilarejo estivesse piscando para ela. De uma das casas, vinha uma cantiga de ninar, cantada baixinho por uma mãe para o seu bebê.
— Que música gostosa — suspirou Algodão, sentindo os olhos ficarem pesados só de ouvir.
Ela desceu ainda mais, até ficar bem baixinha, quase tocando o telhado da casinha de onde vinha a canção. Ali, encontrou outras nuvenzinhas pequenas, todas reunidas, formando um cobertor macio e cinza sobre o vilarejo, prontas para trazer uma chuvinha suave e refrescante durante a noite.
— Vocês também estão com sono? — perguntou Algodão, aproximando-se timidamente do grupo.
— Sempre, à noite — responderam as outras nuvens, fazendo espaço para ela entre elas. — É quando ficamos mais pesadas de tanta água que juntamos durante o dia, e é bom descansar bem aqui, perto das casinhas, ouvindo as canções de ninar que vêm lá de baixo.
— Posso ficar com vocês? — perguntou Algodão, já sentindo que talvez tivesse finalmente encontrado seu lugar.
— Claro que sim — responderam as nuvens, acolhendo-a no meio do grupo macio.
Algodão se aninhou entre as outras nuvens, sentindo-se, pela primeira vez naquele dia, exatamente no lugar certo. A canção de ninar continuava vindo da casinha, agora mais baixinha, sinal de que o bebê já tinha adormecido.
Devagarinho, as nuvens deixaram cair uma chuvinha fina e gostosa sobre o jardim do vilarejo, regando as flores para que acordassem lindas na manhã seguinte. E, enquanto isso, Algodão finalmente fechou os olhos, embalada pelo som suave da chuva caindo e pelas últimas notas da canção de ninar.
Na manhã seguinte, o sol apareceu, e as nuvens, leves e descansadas, voltaram a subir alto no céu, prontas para mais um dia de viagem — mas já sabendo que, ao entardecer, aquele vilarejo tranquilo as esperaria de novo para uma boa noite de sono, e que não precisavam mais procurar sozinhas o lugar perfeito para descansar.
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