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Quando o relógio da cidade batia oito badaladas e as luzes das casas começavam a se apagar, um trem muito especial saía de uma estação que só existia à noite: o Trem Noturno dos Sonhos.
Ele não corria sobre trilhos de ferro, mas sobre um caminho de estrelas que se acendiam bem devagar, uma a uma, formando uma trilha prateada no céu escuro. O maquinista era uma coruja sábia chamada Seu Olhos-Grandes, que conhecia cada casa da cidade e sabia exatamente a hora certa de parar em cada uma.
— Boa noite, trem — dizia ele todas as noites, acariciando a lateral fria do vagão antes de partir. — Vamos ver quem precisa de um bom sonho hoje.
A primeira parada da noite era na casa de Théo, um menino que adorava dinossauros, mas que, naquela noite, já estava com as pálpebras pesadas depois de brincar o dia inteiro no quintal.
— Próxima parada, sonhos de Théo — anunciou Seu Olhos-Grandes, baixinho, para não acordar ninguém que ainda estivesse acordado.
O trem parou silenciosamente na janela do quarto, e um pequeno vagão dourado, cheio de nuvens macias em vez de bancos, esperou até que Théo, já sonolento, fechasse os olhos de vez. Assim que isso aconteceu, uma pontinha do seu sonho — um dinossauro gentil de pescoço comprido, que adorava comer folhas altas das árvores — subiu a bordo, pronto para fazer companhia a Théo a noite toda.
O trem seguiu viagem, passando por cima dos telhados da cidade, parando em outras janelas. Numa delas, embarcou o sonho de uma menina chamada Iara: um jardim onde as flores cantavam baixinho e as borboletas desenhavam formas no ar com suas asas coloridas. Em outra, subiu o sonho de um menino chamado Davi: uma nave espacial silenciosa, sem barulho de motor, para não incomodar as estrelas vizinhas enquanto ele explorava planetas de todas as cores.
Numa casinha pequena no fim da rua, o trem quase passou direto, mas Seu Olhos-Grandes freou de repente.
— Espera — disse ele, apontando com a asa. — Essa janela ainda está com a luz acesa.
Dentro, uma menina chamada Mari ainda estava acordada, com medo de dormir sozinha depois de assistir a um filme um pouco assustador antes do jantar.
— Não se preocupe — disse Seu Olhos-Grandes, pousando com cuidado no parapeito da janela. — O trem tem um vagão especial só para noites como essa.
Do fundo do trem, veio um vagão diferente dos outros, forrado de pelúcia macia e cheio de luzinhas amarelas suaves. Dentro dele, dormia um sonho enorme e gentil, parecido com um cachorro peludo, pronto para proteger quem tivesse medo do escuro.
Quando Mari finalmente conseguiu fechar os olhos, esse sonho-cachorro subiu a bordo dela, prometendo ficar por perto a noite inteira, afastando qualquer coisa assustadora que tentasse se aproximar.
Antes de deixar a rua de Mari, o trem fez ainda uma última parada ali perto, na casa de um bebê chamado Pedrinho, pequeno demais para sonhar sonhos complicados. Para ele, Seu Olhos-Grandes trouxe apenas um sonho simples e macio: o colo quentinho da mãe, embalando-o devagarinho, e uma música de ninar repetida sem parar, do jeitinho que os bebês mais gostam.
— Sonhos pequenos também são importantes — explicou Seu Olhos-Grandes para um passarinho curioso que observava tudo empoleirado num fio. — Cada criança precisa de um sonho do tamanho certo para ela, nem maior, nem menor.
O trem continuou sua ronda, e numa casa de esquina encontrou um menino chamado Gael, que tinha brigado com o irmão mais cedo e foi dormir triste, sem se desculpar. Para ele, Seu Olhos-Grandes escolheu com cuidado um sonho diferente: os dois irmãos brincando juntos numa floresta cheia de pontes coloridas, rindo tanto que esqueciam completamente por que tinham brigado.
— Amanhã ele vai acordar lembrando como é bom rir junto com o irmão — disse a coruja, satisfeita, vendo o sonho se acomodar suavemente no vagão.
Cada sonho que embarcava se acomodava numa nuvem macia dentro do vagão, esperando a hora de voltar para a cabecinha de sua criança, exatamente quando ela mais precisasse dele durante a noite.
Seu Olhos-Grandes conduzia o trem com muito cuidado, sempre devagar, porque sabia que sonhos apressados costumam ficar confusos e viram pesadelos por acidente. Por isso, o Trem Noturno dos Sonhos nunca teve pressa: ele tinha a noite inteira pela frente, e a noite é bem comprida quando se anda devagar.
Quando a última estrela da trilha se acendeu, perto do horizonte, o trem já tinha visitado todas as casas da cidade que precisavam de um sonho gentil naquela noite. Seu Olhos-Grandes suspirou, satisfeito, contando nos dedos das asas quantas crianças tinham dormido tranquilas naquela viagem, e guiou o trem de volta para a estação que só existia à noite, sabendo que voltaria a sair assim que o relógio batesse oito badaladas outra vez.
Numa das últimas janelas da noite, o trem parou brevemente na casa de uma menina chamada Sofia, que tinha acabado de se mudar de cidade e ainda sentia saudade dos amigos antigos. Para ela, Seu Olhos-Grandes escolheu um sonho especial, feito de retalhos: um pátio onde os amigos antigos e os novos colegas da escola brincavam todos juntos, rindo da mesma piada, como se sempre tivessem se conhecido.
— Amanhã ela vai acordar um pouco menos sozinha — murmurou a coruja, satisfeita, guiando o trem de volta ao caminho de estrelas.
E assim, cidade após cidade, noite após noite, o Trem Noturno dos Sonhos continua sua viagem silenciosa pelo céu, entregando exatamente o sonho que cada criança precisa para dormir tranquila até o sol nascer de novo, sem nunca esquecer nenhuma janela pelo caminho.
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