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Era uma tarde de chuva fina em que o cheiro de terra molhada entrava suavemente pela janela entreaberta do sótão. Joca estava sentado no chão de madeira, cercado por seus carrinhos de plástico, mas suspirava de um tédio que parecia não ter fim. "Vovô, eu queria descobrir histórias infantis legais, daquelas que fazem a gente esquecer que o céu lá fora está todo cinza", pediu o menino, olhando com esperança para o Vovô Zezé, que ajeitava os óculos redondos na ponta do nariz. O avô sorriu, e seus olhos brilharam como duas jabuticabas maduras sob a luz da luminária, enquanto ele caminhava lentamente até uma estante antiga, coberta por uma manta de veludo azul-marinho. Ele não buscou um brinquedo novo, mas sim um livro de capa grossa e desgastada, cujas letras douradas pareciam dançar e cintilar conforme o movimento de suas mãos calejadas e gentis.
"Sabe, Joca, as melhores histórias infantis legais não estão apenas presas no papel; elas moram no nosso jeito especial de olhar para o mundo", explicou Vovô Zezé enquanto abria o volume com um cuidado quase sagrado. De repente, um aroma delicioso de canela e flores silvestres começou a emanar de dentro das páginas amareladas, preenchendo o ar do sótão com uma doçura mágica que Joca nunca tinha sentido antes. O menino se aproximou, fascinado, percebendo que as ilustrações não eram apenas desenhos parados, mas pareciam respirar e convidar quem as olhasse para uma aventura sem igual. Joca esticou o dedinho curioso e, ao tocar na imagem de uma floresta feita de algodão-doce, sentiu um formigamento suave que subia pelo braço, como se o livro o estivesse cumprimentando. Era o começo de uma viagem que nenhum videogame ou desenho de televisão poderia superar, pois ali, naquele momento, a imaginação era a rainha absoluta que mandava no tempo e no espaço.
Num piscar de olhos, o tapete velho do sótão se transformou em uma nuvem fofinha e os dois flutuaram para dentro da página, aterrissando suavemente em um vale onde as árvores davam pirulitos de mel em vez de folhas. "Olha lá, vovô, um dragão de verdade!", exclamou Joca, apontando para uma criatura imensa e verde que dormitava tranquilamente perto de um rio feito de limonada geladinha e brilhante. Mas não era um dragão assustador como os dos filmes; o nome dele era Bafafá, e ele possuía escamas que refletiam as cores do arco-íris como se fossem lantejoulas de um traje de carnaval. Bafafá abriu um olho enorme e cor de mel, bocejou uma nuvenzinha de purpurina prateada e disse com uma voz profunda que lembrava o som de um violoncelo: "Sejam muito bem-vindos ao Reino das Histórias Legais, onde o sol nunca queima e os abraços de amigos são infinitos".
Joca correu para perto do gigante gentil e percebeu, maravilhado, que Bafafá não soltava chamas perigosas, mas sim bolhas de sabão gigantescas que traziam imagens de sonhos felizes flutuando dentro delas. "Você gostaria de brincar de esconder entre as nuvens de baunilha?", perguntou o dragão, dando uma risadinha gostosa que fazia suas orelhas de veludo balançarem para lá e para cá. Joca riu junto, sentindo que aquele era o lugar mais divertido de todo o universo, onde as borboletas tocavam sininhos invisíveis ao voar e os coelhos usavam óculos coloridos para ler mapas de tesouros feitos inteiramente de chocolate. Vovô Zezé observava tudo de longe, com um sorriso de satisfação no rosto, orgulhoso de ver como a curiosidade pura do seu neto transformava cada palavra dita em uma cor nova e vibrante no horizonte daquele mundo inventado.
Eles passaram horas inesquecíveis explorando montanhas feitas de travesseiros de penas e mergulhando em lagos de gelatina de morango, onde os peixinhos eram feitos de pura luz e cantavam canções de ninar para as pedrinhas do fundo. Bafafá ensinou Joca a assobiar para as flores do campo, que respondiam mudando de cor instantaneamente, passando do azul-bebê para o rosa-choque em um segundo de pura alegria. "É por isso que estas são consideradas histórias infantis legais, Joca, porque elas crescem dentro do seu coração e te fazem companhia mesmo quando você está sozinho no seu quarto", comentou o dragão enquanto oferecia uma carona em suas costas macias e seguras. O menino se sentiu protegido e imensamente feliz, percebendo que a verdadeira magia de uma boa narrativa era ter alguém querido para compartilhar aqueles momentos de pura invenção e carinho sincero.
Quando o sol do livro começou a se pôr, pintando o céu com um tom de laranja suave que tinha cheirinho de pêssego maduro, Vovô Zezé chamou Joca para iniciar o caminho de volta. Eles se despediram de Bafafá com um abraço coletivo tão quentinho que parecia um cobertor recém-saído do varal em um dia ensolarado de verão. O dragão piscou para Joca e prometeu, com um movimento de cauda, que sempre que o menino sentisse saudade, bastava fechar os olhos e buscar pelas "histórias infantis legais" em sua mente que ele estaria lá, pronto para soprar novas bolhas de sabão. Com um sopro de vento perfumado que cheirava a talco e saudade, a nuvem mágica os levou de volta para o conforto do sótão, onde a chuva lá fora já tinha parado e a lua começava a espiar curiosa por entre as nuvens escuras.
De volta ao chão de madeira firme, Joca olhou para o livro agora fechado e depois para o vovô, sentindo que seu peito estava muito mais aquecido do que quando a tarde cinzenta começou. "Vovô, amanhã a gente pode visitar o Bafafá de novo e descobrir mais aventuras?", perguntou ele, já bocejando profundamente e sentindo o peso gostoso do sono chegando aos pouquinhos para descansar seus olhos. O vovô cobriu o neto com a manta azul e depositou um beijo terno em sua testa, sussurrando que as grandes aventuras nunca terminam de verdade para quem guarda a fantasia guardada no bolso do pijama. Joca adormeceu ali mesmo, abraçado ao vovô, sonhando com dragões que amam geleia e com todas as histórias infantis legais que ainda iriam colorir suas noites de sono tranquilo e paz absoluta.
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